Em 2011, vimos o povo novamente nas ruas. Uma situação que parecia tão distante e definitivamente escondida por trás dos meios virtuais e da estagnação social. Mas, felizmente, essa era uma concepção equivocada. Em muitos lugares do mundo a opressão, a concentração de poder, a corrupção e outros atributos de qualidade inferior como esses são presentes e incomodam diariamente. Em função disso, vimos a chamada "Primavera dos Povos" que se destacou nos países islâmicos, africanos ou asiáticos. Casos em que a permanência prolongada de um governante, ditador, chegou ao limite.
Egito, Líbia e Iêmem são alguns exemplos de movimentações sociais em que o povo tomou as ruas em protesto contra a concentração do poder nas mãos de um perpétuo. Eventos que marcaram a derrubada de regimes autoritários históricos. Cá do outro lado do Atlântico, conhecemos os exemplos dos estudantes, sobretudo, do Chile, que, com muita determinação, movimentaram o país e impressionaram a América Latina em busca de melhorias no sistema educacional de seu país. E, por fim, diversos movimentos de ocupação de importantes centros de referência política ou econômica ocorreram nos Estados Unidos, na Europa e, até mesmo, no Brasil.
O reconhecimento da ação do povo foi tamanho que uma das mais importantes revistas internacionais concedeu o prêmio de personalidade do ano aos manifestantes que, a exemplo do ocorrido em Wall Street, ocuparam locais de referênica política e econômica no mundo para protestar contra os abusos do poder e do capital. Mas não é hora de vangloriar e parar, muito ainda há a ser feito no mundo. Algumas ditaduras foram derrubadas, alguns conglomerados capitalistas foram questionados, a corrupção foi atacada, mas nada disso chegou ao fim. A interminável luta pela democracia, pelos direitos humanos e pela vida exige fôlego e envolvimento.
Em certa medida, tenho receio da banalização das contestações. Por um lado, parece-me que grupos poderosos política ou economicamente já não se incomodam mais com oposições populares. Por outro, parece-me que a hierarquia das preocupações sociais está desorganizada. Explico, e abordo a questão brasileira.
Sociedades com qualidade de vida inferior a do Brasil, como na Ásia, África e América Latina estão passando por momentos de necessário crescimento social, um momento de conquista e afirmação de direitos políticos, civis e sociais que já conquistamos. Tais como: direito ao voto, liberdade individual, liberdade de imprensa e educação pública. Não que tudo isso seja exemplar no Brasil, mas em condições superiores a outros Estados das regiões citadas. No caso brasileiro, a sociedade, leia-se classe média, está acomodada. Já vimos isso antes, a economia está crescendo, a miséria reduzindo e o povo tem mais acesso à educação e ao dinheiro. Guardada suas devidas proporções, como no "Milagre Econômico" do Regime Militar. O que vemos de perto é o amparo do mundo virtual, através das redes sociais. Local este onde todos se manifestam contra tudo, mas não praticam nada em vida real.
O segundo caso, hierarquia de preocupações, tem grande ligação com o primeiro. Essa grande manifestação contra tudo banaliza-se. Recentemente, uma enfermeira matou um cachorro em casa e isso comoveu a todos em níveis alarmantes. Não que o caso seja vazio de importância, longe disso! A responsável pelo ato deve ser devidamente julgada por isso e, para muito além, é um caso exemplar para se explorar o comportamento humano e o que nós não queremos que aconteça com animais racionais ou "irracionais". Mas, o que aqui destaco, é que, na mesma semana, o Prefeito de São Paulo, Kassab, aumentou em 246% o salário dos funcionários de segundo escalão da Prefeitura. Em Campinas (SP) e em Juiz de Fora (MG), por exemplo, os vereadores aumentaram seus próprios salários em cifras gigantescas também. O IBGE divulgou a relação das cidades brasileiras com o menor rendimento per capita do país. Sem contar os corriqueiros casos de corrupção nos Ministérios e no Congresso Nacional. Ou seja, o caso da morte do cachorro, por exemplo, ocultou no mundo das redes sociais problemas que possuem maiores amplitudes e consequências para a sociedade.
Enquanto se lamentou a morte do cachorro e se perseguiu a enfermeira, - que, repito, não deveria também ser ignorado - muitas decisões fundamentais para o avanço da sociedade como um todo passaram batidas e, agora, dificilmente serão revertidas. Todo esse dinheiro que agora vai para o bolso dos políticos, poderia ser investido na educação básica e fundamental, poderia ser investido em projetos sociais nas cidades com menores índices de renda per capita do Brasil para trazê-las para condições de vida melhores, todo esse tempo perdido nos Ministérios e nos Congressos poderia ser utilizado para reformas tributária, eleitoral, agrária e social. Entre inúmeras outras coisas. Objetivos que, contudo, não fazem parte do escopo de interesses de quem ocupa tais cargos e somos nós, a sociedade, que temos de exigir isso.
Não quero aqui condenar o mundo virtual e as redes sociais. Muito pelo contrário. É através desses meios que as pessoas têm, cada vez mais, acesso às informações, relevantes e irrelevantes. As pessoas se incomodam com tudo isso, mas, como disse, manifestam-se contra tudo e agem contra nada. O mundo virtual é um excelente caminho para unir pessoas de diferentes locais que vivem realidades indesejadas diferentes, é uma grande possibilidade que temos em mãos e precisamos saber utilizá-las. Há de ser possível transferir toda essa insatisfação nas redes sociais para o mundo real, para a prática! Nós, a sociedade, é que devemos ter o poder, e, agora, temos uma capacidade de comunicação e articulação imensa. Não podemos ficar parados vendo o tempo passar e os abusos se repetirem. É hora de canalizar as forças para o mundo além das telas de computador, e para o nosso próprio bem, contra tudo aquilo que impede a humanidade de avançar e conhecer condições de vida melhores e mais dígnas!
Este texto é um convite à elaboração de propostas, discussão de planos de ação e busca por caminhos efetivos. Colabore!
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1 comentários:
Meu caro amigo, o que me preocupa já algum tempo é essa onda do "politicamente correto": uma hipocrisia generalizada em redes sociais e em outros meios de comunicação, onde se condena tudo o que não é tido institucionalmente como certo ou bonito, mas que não corresponde à realidade. Hoje em dia é cool protestar, mesmo que não se saiba direito o motivo e que nunca se critique a fonte que quer vender a ideia. Nada mais que uma nova forma de alienação, mas esta ainda mais cruel, porque cria nas pessoas a impressão de que elas estão sendo úteis, de que elas estão fazendo algo bom, quando, na verdade, estão é fazendo nada (ou, no máximo, se distanciando do que realmente importa).
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